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Psicoterapia psicodélica para tratar os traumas da Covid

Phaneros covidUTIs lotadas. Hospitais de campanha montados à pressa. Doentes esperando por leitos, outros agonizando por falta de oxigênio. Poucos equipamentos de proteção. Se as cenas mais dramáticas da pandemia de Covid-19 estão sendo traumatizantes para nós, do público em geral, imagine para quem a enfrenta na linha de frente? Especialistas já contam com níveis altos de transtorno de estresse pós-traumático entre profissionais da área da saúde em geral. Não à toa, espera-se que as ciências psicodélicas foquem sua atenção na pesquisa para tratar esse transtorno.

Uma pesquisa preliminar feita na Noruega constatou que 28% dos profissionais da linha de frente por lá se encaixam no diagnóstico de estresse pós-traumático. Considerando que a investigação foi feita entre março e abril de 2020, espera-se um aumento nesse número.

As esperanças de encontrar novos tratamentos entre os psicodélicos são grandes. A substância mais promissora para tratar o trauma até agora é o MDMA, que, administrado juntamente com a psicoterapia, apresentou resultados rápidos e consistentes em estudos feitos ao redor do mundo – incluindo o nosso, aqui no Brasil, publicado em 2020 na Revista Brasileira de Psiquiatria.

Estima-se que tratar traumas com a ajuda da psicoterapia assistida por MDMA possa gerar uma economia de US $103,2 milhões ao longo de 30 anos. De tão animador, esse tipo de tratamento ganhou da FDA, a autoridade que regula medicamentos nos EUA, o selo de “terapia revolucionária” para o estresse pós-traumático, em 2017.

Já para a depressão que possa acometer os profissionais da saúde, a esperança de tratamento  está na psilocibina, substância extraída dos chamados “cogumelos mágicos”. Um estudo da Universidade Johns Hopkins mostrou que duas doses de psilocibina, juntamente com terapia, foram suficientes para reduzir rapidamente e de forma significativa os sintomas de depressão – uma melhora que persistiu quatro semanas depois do tratamento.

Fonte: Forbes Psychology Trends

Não, MDMA não causa danos no cérebro

O MDMA ainda sofre com a má fama causada por um estudo de quase 20 anos atrás. Quer entender como erros no fazer científico – e depois na sua divulgação – podem atrapalhar o avanço da medicina? Peguemos um dos exemplos mais escandalosos da literatura médica e farmacológica recente. Um artigo publicado em 2002 na mais aclamada revista científica do mundo, a Science, declarou: MDMA poderia causar graves danos ao cérebro.

A notícia disparou e rapidamente circulou o mundo inteiro em tons estridentes. O maior jornal dos EUA, o New York Times, chegou a afirmar: “a quantidade de ecstasy que um usuário recreativo toma em uma noite pode já ser o suficiente para causar danos cerebrais permanentes”. Isso se deu principalmente porque era o tipo de informação que combinava com a visão tradicional que se tem sobre substâncias psicodélicas: de que são extremamente perigosas e nocivas.

Até que outros especialistas resolveram dar uma olhada no estudo.

Logo detectaram uma série de dados estranhos e conclusões que não faziam sentido. Assim, resolveram questionar os autores do estudo original, que acabaram confessando um erro obsceno: ao contrário do que haviam afirmado, os cientistas não haviam utilizado MDMA nos seus experimentos com macacos – mas, sim, meta-anfetamina, duas substâncias distintas. Aos autores do artigo não restou nada a não ser admitir a lambança e publicar uma retratação em 2003.

Mas já era tarde demais. Ao menos 26 dos maiores jornais dos EUA, como o New York Times e o Washington Post, publicaram notícias sobre o estudo falso, em 2002, mas apenas metade publicou sua retratação. E mais: muitas das reportagens sobre o grande erro no estudo original eram mais curtas e não continham informações importantes para contextualizar o engano. Isso obviamente ajudou a perpetuar o preconceito contra drogas que são usadas de forma recreativa – mas que também possuem potencial médico, como o MDMA.

Foi isso que concluiu um estudo publicado no Journal of Psychoactive Drugs em novembro de 2020, que analisou os impactos na mídia do artigo falso. O comportamento é um aspecto comum no jornalismo: as notícias originais costumam ser muito mais lidas do que a admissão de erros que eventualmente possa seguir. Isso só reforça a importância da checagem de dados e de entrevistas com especialistas no assunto.

Ainda hoje encontramos, no Brasil, profissionais de saúde e médicos que se referem vagamente aos efeitos tóxicos do MDMA, mas que desconhecem a história completa. Como as pesquisas recentes mostram, quando o MDMA é fabricado com controle de qualidade e administrado em contexto terapêutico sob supervisão médica, ele tem, sim, enorme potencial no tratamento de traumas graves. Já quando obtido de forma ilícita, onde é apelidado de ecstasy, bala, molly etc, mais de metade das doses sequer contém a substância MDMA, além de virem acrescidas por até 500 contaminantes. Por isso, é tão importante diferenciar as duas situações.

LINK: https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/02791072.2020.1847365?forwardService=showFullText&tokenAccess=WMPJ56VGKSMTQRWXU7VE
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Folha de São Paulo – MDMA para tratamento de estresse pós-traumático é testado no Brasil

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O MDMA, ou metilenodioximetanfetamina, princípio ativo do ecstasy, está em vias de se tornar a primeira droga psicodélica a receber a licença de remédio nos EUA, na forma de adjuvante em terapia para estresse pós-traumático. A substância encontra-se na última fase de testes clínicos, com resultados até agora bastante promissores.

A mudança de paradigma tem como um de seus principais propulsores o trabalho desenvolvido pela Associação Multidisciplinar de Estudos Psicodélicos (Maps, na sigla em inglês), organização americana fundada em 1986 que criou e vem disseminando o protocolo para o uso terapêutico do MDMA.

Foi esse protocolo que Schenberg, membro do Instituto Phaneros, trouxe e aplicou pela primeira vez em pacientes brasileiros —e cujos resultados serão publicados em breve na Revista Brasileira de Psiquiatria.

O pesquisador tomou contato com essa terapia por volta de 2014, quando fazia pós-doutorado na Inglaterra, num curso oferecido pela Maps. “Eu conhecia alguns resultados deles, mas de uma perspectiva mais fria, de quem lê um artigo. No curso pude ver a coisa em ação, as sessões com os pacientes. Aquilo me impressionou muito e decidi aplicar no Brasil”, diz.

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Fonte: Folha de São Paulo