Instituto Phaneros

Até quando é ruim, a ayahuasca pode fazer bem

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Povos indígenas já conhecem há séculos os efeitos do famoso chá de cipó, usado tradicionalmente em cerimônias comunitárias e com atribuições ritualísticas. Os seguidores da religião do Santo Daime também se utilizam do preparado desde o início do século XX. Nos últimos anos, no entanto, a ayahuasca tem se espalhado pelas mais distintas regiões do planeta, onde vem sendo consumida por curiosos e pessoas sem contextualização prévia, interessadas apenas nas experiências psicodélicas.

Em março de 2021, um grupo de cientistas espanhóis e brasileiros publicou um artigo no Journal of Clinical Psychopharmacology que analisou os efeitos do chá em 40 participantes que o ingeriram pela primeira vez na vida. Destes, sete participantes relataram ter sentido reações psicológicas agudas e desafiadoras. Os cientistas estavam interessados em entender se pessoas que sentem efeitos desagradáveis ficariam com a mesma impressão meses depois.

Quatro dos sete entrevistados pelo grupo já apresentavam algum tipo de transtorno psiquiátrico antes da cerimônia. Dois deles relataram não sentir mais os males depois da experiência e os outros dois perceberam uma redução considerável dos seus sintomas. Esses efeitos positivos puderam ser sentidos até seis meses depois da ingestão da ayahuasca. Para os participantes, boa parte das reações negativas que sentiram ao longo da cerimônia se deu pelas condições  desfavoráveis do ritual, como mediação inapropriada ou falta de explicações. 

Com esses resultados em mãos, os pesquisadores sugerem que a ayahuasca possa apresentar efeitos positivos para as pessoas com transtornos mentais, mesmo entre alguns que tiveram experiências aversivas e desagradáveis com o cipó. O pequeníssimo número de participantes do estudo, porém, indica que ainda serão necessários muitas outras investigações sobre o assunto. O que a pesquisa mostra, no entanto, é que séculos de conhecimentos ancestrais nem sempre podem ser replicados em eventos amadores ao redor do mundo com facilidade.

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O poder dos ritos

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Os povos ameríndios já o sabem há séculos, desde tempos imemoriais. Mas só agora a ciência está chegando lá. O uso das plantas de poder, ou medicina da floresta (ou substâncias psicodélicas mesmo) é mais significativo quando dentro de um contexto comunitário. Pelo menos é isso que um grupo de pesquisa do Imperial College em Londres resolveu estudar. Os resultados saíram em janeiro de 2021 na revista Frontiers in Pharmacology. 

Os pesquisadores, liderados pelo israelense Leor Roseman, PhD, analisaram dados fornecidos online por quase 900 participantes de rituais com ayahuasca e cogumelos. Para isso, desenvolveram um questionário, chamado “Communitas Scale”, que mediu os impactos da experiência comunitária algumas semanas e dias antes e depois do evento. Os resultados confirmam que rituais realizados em grupos fazem com que as pessoas se sintam mais unidas e em pertencimento, compartilhando a experiência de serem humanas, estando conectadas entre si e aumentando o  bem estar. 

Os efeitos positivos na saúde mental foram sentidos por até quatro semanas depois dos rituais e eram mais evidentes nos casos em que participantes haviam compartilhado experiências e histórias de vida entre si. Quanto mais próxima era a relação entre os voluntários e os facilitadores das cerimônias, maior era também o impacto emocional positivo e a sensação de pertencimento.

Assim, os pesquisadores apontaram para possíveis limitações nos atuais estudos com psicodélicos, em que os pacientes passam pela experiência de maneira individual. Isso poderia restringir alguns aspectos do acontecimento e diminuir os benefícios gerados nas suas comunidades. Por outro lado, para pacientes graves e em casos específicos, como sobreviventes de abuso sexual, rituais em grupos podem ser extremamente desafiadores e talvez menos seguro. Como tudo na ciência, é importante que os métodos sejam criteriosos e confiáveis.